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A Excomunhão da Vítima

Ou O Cordel dos Excomungados. Recebi da minha mãe por email. O autor é Miguezim de Princesa, poeta popular, paraibano, residente em Brasília:

I
Peço à musa do improviso
Que me dê inspiração,
Ciência e sabedoria,
Inteligência e razão,
Peço que Deus que me proteja
Para falar de uma igreja
Que comete aberração.

II
Pelas fogueiras que arderam
No tempo da Inquisição,
Pelas mulheres queimadas
Sem apelo ou compaixão,
Pensava que o Vaticano
Tinha mudado de plano,
Abolido a excomunhão.

III
Mas o bispo Dom José,
Um homem conservador,
Tratou com impiedade
A vítima de um estuprador,
Massacrada e abusada,
Sofrida e violentada,
Sem futuro e sem amor.

IV
Depois que houve o estupro,
A menina engravidou.
Ela só tem nove anos,
A Justiça autorizou
Que a criança abortasse
Antes que a vida brotasse
Um fruto do desamor.

V
O aborto, já previsto
Na nossa legislação,
Teve o apoio declarado
Do ministro Temporão,
Que é médico bom e zeloso,
E mostrou ser corajoso
Ao enfrentar a questão.

VI
Além de excomungar
O ministro Temporão,
Dom José excomungou
Da menina, sem razão,
A mãe, a vó e a tia
E se brincar puniria
Até a quarta geração.

VII
É esquisito que a igreja,
Que tanto prega o perdão,
Resolva excomungar médicos
Que cumpriram sua missão
E num beco sem saída
Livraram uma pobre vida
Do fel da desilusão.

VIII
Mas o mundo está virado
E cheio de desatinos:
Missa virou presepada,
Tem dança até do pepino,
Padre que usa bermuda,
Deixando mulher buchuda
E bolindo com os meninos.

IX
Milhões morrendo de Aids:
É grande a devastação,
Mas a igreja acha bom
Furunfar sem proteção
E o padre prega na missa
Que camisinha na lingüiça
É uma coisa do Cão.

X
E esta quem me contou
Foi Lima do Camarão:
Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
A vaga de sacristão.

Confissão a Maat

MaatNa mitologia egípcia, Maat representa a Justiça e o Equilíbrio. Costuma ser representada como uma mulher jovem, com uma pluma de avestruz sobre a cabeça. Com essa pluma, ela pesava as almas de todos que chegassem ao seu Salão de Julgamento subterrâneo, depois que o indivíduo fizesse uma confissão negativa de 42 pecados (as 42 leis de Maat). Maat é, portanto, a própria verdade cultuada.

Esta bela confissão é uma das várias orações que os antigos egípcios recitavam todas as noites, antes de dormir:

Glória a Ti, Ó Grande Deus, Mestre de toda Verdade! Venho à Tua presença,  ó meu Deus, para diante de Ti tomar consciência de Teus decretos.  Eu Te conheço e comungo contigo e com Tuas Quarenta e Duas leis que habitam contigo nesta Câmara de Maat… É nessa verdade que venho comungar contigo, e Maat está em meu pensamento e em minha alma.

Por ti destruí a maldade. Não fiz nenhum mal à humanidade. Não oprimi os membros de minha família. Não forjei o mal em lugar da Justiça e da Verdade. Não convivi com homens indignos. Não pedi para ser considerado o primeiro. Não obriguei pessoa alguma a um trabalho excessivo em meu favor. Não apresentei meu nome para ser objeto de honrarias. Não espoliei os pobres tomando seus bens. Não fiz homem algum passar fome. Não fiz ninguém chorar. Não infligi qualquer sofrimento a um homem ou animal. Não espoliei nenhum templo de suas oblações. Não adulterei nenhum padrão de medida. Não invadi os terrenos de outros. Não roubei terras. Não adulterei os pesos da balança para enganar o vendedor. Não falsifiquei a indicação do ponteiro para enganar o comprador. Não tirei o leite da boca das crianças. Não desviei a água de onde ela devia correr. Não apaguei a chama quando ela devia queimar. Não repeli Deus em Suas manifestações.

Sou puro! Sou puro! Sou puro! Minha pureza é a pureza da Divindade do Templo Sagrado. Por isso o mal não me acometerá neste mundo, eis que conheço as leis de Deus que são Deus. Cro-Mâat!

http://www.culturabrasil.org/confissaoamaat.htm

Capítulo 22

Posso bem imaginar as palavras de um ateu: “Branco, branco! A-A-Amor! Meu Deus!” – e o salto de fé do leito de morte. Enquanto o agnóstico, se permanecer fiel a seu eu racional, talvez tente explicar a luz quente que o banha dizendo: “Possivelmente uma oxigenação in-in-insuficiente do cérebro”, e, até o último momento, carece de imaginação e perde o melhor da história.

(MARTEL, Yann. A Vida de Pi. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 81-82).