Archive for the 'citações' Category

Dao

Renova-te, renasce em ti mesmo. Multiplica os teus olhos, para verem mais. Multiplica os teus braços, para semeares tudo. Destrói os olhos que tiverem visto, cria outros para as visões novas. Destrói os braços que tiverem semeado, para se esquecerem de colher. Sê sempre o mesmo. Sempre outro. Mas sempre alto, sempre longe e dentro de tudo.

(Cecília Meirelles)

O cultivo do corpo visando a saúde e a longevidade, expresso na graciosidade da postura e dos movimentos, e o cultivo do saber e da consciência complementam-se mutuamente […] A mera acumulação de informações é, do ponto de vista taoísta, apenas teoria vazia, já que neste caso seu portador não seria um exemplo, uma encarnação daquilo que julga conhecer.

(José Bizerril)

Para querer iniciar o recolhimento
É necessário consolidar a expansão
Para querer iniciar o enfraquecimento
É necessário consolidar o fortalecimento
Para querer iniciar o abandono
É necessário consolidar o amparo
Para querer iniciar a subtração
É necessário consolidar o aumento
Isto se chama breve iluminação

(Tao Te Ching, 36)

A vida é assim
Esquenta e esfria
Aperta e daí afrouxa
Sossega e depois
desinquieta
O que ela quer da gente é coragem

(Guimarães Rosa)

Aum

Enquanto não recobro o ânimo de escrever aqui no blogue, vou enchendo-o de citações e textos de outras pessoas. Esta é um trecho de uma entrevista dada pelo mitólogo Joseph Campbell (o cara!) ao jornalista Bill Moyers no Museu de História Natural de Nova York, para o documentário O Poder do Mito. A quem quiser, recomendo fortemente ler o livro (publicado no Brasil pela editora Palas Athena), bem como assistir a todas as seis partes do DVD (distribuído pela Log On – para quem preferir, tem na internet para baixar).

Campbell certamente foi o maior estudioso de mitologias que já existiu, e seu trabalho, que cobria vários aspectos da experiência humana, influenciou a literatura, a música e o cinema. Em breve, pretendo assistir também Sukhavati – Uma Jornada Mítica, descrito na caixinha do DVD como “uma viagem em busca de transcendência e iluminação por meio da análise de símbolos e sagas deixadas por nossos antepassados”, que “narra de maneira envolvente a trajetória do homem em busca de autoconhecimento desde os primórdios”. Nesse vídeo (ainda segundo a descrição na caixinha do DVD), “o relacionamento de mitos de diferentes culturas é costurado com uma direção poética, onde a explicação dos mitos é quase uma ode a eles”. Esse ainda não achei para baixar, nem para assistir online. Assim que encontrar, posto aqui.

Ao trecho de hoje, então:

Aum RuLes!!!

Moyers:
Interpretei aquela afirmação poderosa e misteriosa, “A Palavra se fez carne”, como o princípio eterno que se encontra na trajetória humana, em nossa experiência.
Campbell:
E você também pode encontrar a Palavra em você mesmo.
Moyers:
Onde encontrá-la senão em você mesmo?
Campbell:
Já foi dito que a poesia consiste em permitir que a Palavra seja ouvida para além das palavras. E Goethe diz: “Todas as coisas são metáforas”. Tudo o que é transitório não é senão uma referência metafórica. Eis o que todos somos.
Moyers:
Mas como alguém pode cultuar uma metáfora, amá-la, morrer por ela?
Campbell:
É o que as pessoas fazem, por toda parte – morrem por metáforas. Mas quando você realmente capta o som AUM, o som do mistério da palavra em todos os lugares, então você não precisa sair à procura de alguma coisa e morrer por ela, porque é certo que ela está à sua volta. Aquiete-se apenas, veja-a, experimente-a e conheça-a. Essa é uma experiência culminante.
Moyers:
Explique o AUM.

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Discurso para as eras

Trecho do filme O Egípcio (The Egypcian, EUA, 1954). Abaixo, transcrição/tradução dos diálogos, começando um pouco mais cedo que o ponto em que começa o filme, e termina um pouco depois.

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A verdade sobre o mundo acadêmico

Recebi este texto por email, de uma amiga. Não sei quem é o autor, mas quem tá escrevendo monografia / tese / dissertação como eu já deve ter se tocado de que é a mais pura verdade…

* * *

Num dia lindo e ensolarado o coelho saiu de sua toca com seu notebook e pôs-se a trabalhar, bem concentrado. Pouco depois passou por ali uma raposa, e viu aquele suculento coelhinho tão distraído, que chegou a salivar. No entanto, ela ficou intrigada com a atividade do coelho e aproximou-se, curiosa:

– Coelhinho, o que você está fazendo aí, tão concentrado?

– Estou redigindo a minha tese de doutorado, disse o coelho, sem tirar os olhos do trabalho.

– Hummmm… e qual é o tema da sua tese?

– Ah, é uma teoria provando que os coelhos são os verdadeiros predadores naturais das raposas.

A raposa ficou indignada:

– Ora! Isso é ridículo! Nós é que somos os predadores dos coelhos!

– Absolutamente! Venha comigo à minha toca que eu te mostro minha prova experimental.

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O mangusto

Como a família anda visitando e eu não consigo escrever um texto decente (desculpas esfarrapadas comandam!), vai uma anedota de Aleister Crowley, postada originalmente dia 11 de setembro de 2008, num blog antigo.

DSCF0874Havia estes dois homens, compartilhando um vagão de um trem. Eles não se conheciam. Apenas estavam viajando juntos. Um dos homens tinha, sobre seu colo, uma caixa de papelão com furos feitos na tampa. Depois de algum tempo gasto em observar o que poderia estar dentro da caixa de seu companheiro de viagem, o outro homem finalmente não pôde conter sua curiosidade. Ele perguntou:

– Perdoe-me, mas não pude deixar de reparar em sua caixa. Ela contém alguma espécie de animal?

O outro homem, apesar de obviamente surpreso por esta intromissão impertinente de um estranho, sorriu educadamente ao responder:

– Você está absolutamente certo. Realmente há uma criatura guardada nesta caixa. E ademais, posso contar, o animal em questão é um mangusto.

O primeiro homem, que iniciara o inquérito, ficou espantado pela revelação. Balbuciando com surpresa, procurou por maiores explicações acerca desta revelação certamente provocadora feita por seu estranho companheiro de viagem.

– Um mangusto? Senhor, devo confessar que tinha esperado um gato, ou coelho, não um animal tão exótico e diferente. O animal a que você se refere desperta tanto minha curiosidade que devo implorar-lhe, senhor, que me conte mais. O que o senhor deseja com este espécime, se posso ser tão ousado?

O outro homem, que sentava com a caixa perfurada sobre o colo, encolheu os ombros aborrecidamente quando respondeu:

– Bem, é uma questão um tanto pessoal, visto que diz respeito a uma tragédia familiar. No entanto, uma vez que acredito poder confiar em sua discrição, suponho que não me importo em compartilhar meu conto infeliz com você.

“Veja bem”, o homem continuou, “esta triste história diz respeito a meu irmão mais velho. Ele sempre foi aquilo a que acredito que você poderia se referir como a ovelha negra da família. Por muitos anos, ele se entregou a uma série de vícios previsível e rotineira, dos quais o pior era seu gosto por bebidas fortes. Seu alcoolismo progrediu até que ele agora se encontra nos estágios finais de delirium tremens. Meu irmão agora vê serpentes por todo lado, e esta é a razão por que lhe estou levando este mangusto, para que possa dar cabo delas”.

– Desculpe-me – o outro homem interrompeu, parecendo confuso. – Mas, essas cobras que seu irmão vê… não são cobras imaginárias?

– Deveras – seu companheiro de viagem respondeu. – Mas este – e aqui ele gesticulou de forma significativa para a caixa perfurada sobre seu colo, – este é um mangusto imaginário.

Imagem: DSCF084 por Eric (Daddy Oh)

O caso do cabra castrado

Saudades do tempo em que só o que me preocupava na faculdade era o caso do cabra castrado, cuja sentença (supostamente preservada pelo Instituto Histórico de Alagoas – embora hoje Porto da Folha seja um município do Estado de Sergipe) se lê abaixo:

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Na tal capadura a macete, os testítulos da vítima são apoiados sobre uma superfície, e seguida, esmagados com um porrete de madeira. Vamos lá, caro leitor, pode confessar que você soltou uma exclamação de dor!

Existe também uma outra versão, que peguei nesse site. É mais extensa que a primeira, que foi a apresentada pela professora de Pesquisa Jurídica, lá nos meus tempos de calouro, mas tem ainda a grafia da época e uma bizarríssima (e igualmente deliciosa!) citação no que se supõe ser latim:

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Seja como a água

Trecho da “entrevista perdida” com Bruce Lee, em dezembro de 1971, no programa de TV de Pierre Berton:

Bruce Lee:
Esvazie sua mente. Livre-se das formas, não tenha formas – como a água. Agora, você põe a água num copo, e ela se torna o copo; você põe a água numa garrafa e ela se torna a garrafa; você a põe numa xícara e ela se torna a xícara. A água pode fluir ou pode golpear. Seja água, meu amigo… desse jeito, vê?
Pierre Berton:
Sim, eu vejo, entendo a idéia. Entendo o poder por trás disso…
Bruce Lee:
Eu consegui, não é? Então, o que estou dizendo na verdade, veja só, é uma combinação de ambos. Quer dizer, aqui está o instinto natural e aqui está o controle. Você deve combinar os dois em harmonia. Não… se você tem um ao extremo, você será muito acientífico. Se tiver o outro ao extremo, você se torna, de repente, um autômato… não mais um ser humano. Então é uma combinação bem-sucedida de ambos. Assim sendo, é bem lento e você o empurra para fora, mas ao mesmo tempo você mantém a continuidade seguindo, dobrando, esticando, tudo. Você simplesmente continua se movendo.
Pierre Berton:
Isso parece com um dançarino de balé…
Bruce Lee:
E é. Quer dizer, a idéia, para eles, é que “água corrente não cria ranço”. Então você tem que simplesmente “continuar fluindo”.

Dica do Thiago. Para ver a entrevista completa, no YouTube (em inglês): parte 1, parte 2 e parte 3. Transcrição completa da entrevista (também em inglês) aqui. Seja como a água, caro(a) visitante ;-)