Domingo passado, terminei de assistir as duas temporadas de Carnivàle, seriado fantástico torpemente cancelado pela HBO devido à queda na audiência, que não compensava o elevado custo de produção. Ambientada nos Estados Unidos da década de 1930, em plena Grande Depressão (época a que o autor da série se refere como a última grande era da magia), Carnivàle é uma batalha épica entre o Bem e o Mal.
Em 1934, o jovem de 18 anos chamado Ben Hawkins (Nick Stahl) vê sua mãe falecer, enquanto sua pequena propriedade rural, em Milfay, Oklahoma, é tomada por um banco, e acaba sendo acolhido por um circo. Enquanto isso, em Mintern, Califórnia, um pastor metodista, o Irmão Justin Crowe (Clancy Brown), esforça-se por estabelecer um local de culto para os imigrantes que chegavam de vários Estados, fugindo do dust bowl e da recessão econômica. Ambos passam a compartilhar sonhos e visões surreais que os colocam em busca do mesmo homem, Henry Scudder, e descobrem ser portadores de dons fantásticos. E há ainda a jovem cartomante Sofie (Clea DuVall), em busca de um lugar onde se sinta em casa…
A série tem toda uma complexa mitologia, infelizmente ainda não totalmente explicada, devido ao cancelamento prematuro. (Previstas inicialmente seis temporadas, apenas duas foram produzidas). A produção, como era de se esperar de uma série da HBO, é impecável. As atuações são das boas, a história é excelente, a estética é fascinante, e a trilha sonora composta por Jeff Beal é formidável, feita como se fosse para cinema. Saca só:
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A história (fodástica, como já disse) desperta inúmeras questões filosóficas acerca de dualismo, fatalismo, dentre outros pontos interessantes – tanto que me sinto obrigado a assistir tudo de novo, para apreender melhor os fatos narrados e aprofundar minhas considerações acerca dos pontos levantados sobre a série, mas não é sobre isso que pretendo escrever aqui. Já se falou muito sobre o assunto desde o lançamento da mesma em 2003, e minhas considerações estão ainda muito cruas para lançar algo novo sobre o assunto. Também não é minha intenção fazer uma resenha do seriado, essas existem aos montes. Aqui, digo apenas que minha avaliação é muito positiva, e recomendo fortemente a quem quiser assistir. O que acho interessante é que esta série me deu vontade de fugir com o circo.
Isso mesmo: fiquei com vontade de fugir com o circo. A realidade mostrada em Carnivàle é dura, sofrida, nem um pouco hospitaleira. Os membros do circo, quando não são aberrações, são pessoas completamente deslocadas da sociedade, e a maioria permanece nele apenas por inércia, ou por não ter outro lugar para onde ir. Sofie quer fugir do circo. Ben também não pertence a ele, mas segue em frente mesmo assim. Justin odeia tanto o circo quanto seus integrantes, e ninguém é verdadeiramente feliz dentro dele – tanto que o tom da série é meio sombrio e melancólico, com cor de poeira e jeito de coisa velha, surrada. Também a música (como não poderia deixar de ser) contribui para o clima dramático da série:
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Mas, como disse a Sofie no episódio piloto: “The people in these towns, they’re asleep. All day at work, at home, sleepwalkers. We wake ‘em up”. As pessoas nas cidades estão dormindo. Todo dia no trabalho, em casa, sonâmulas. O pessoal do circo – as aberrações, as pessoas deslocadas, o incomum – é que as despertam, que as chamam para outra realidade que não a vida sonâmbula de casa – faculdade – trabalho – birita pra esquecer as mágoas – casa. Uma excelente metáfora para a busca mística, sem dúvida, mas meu desejo de fugir com o circo, ao ver a série, não se resumiu ao simbólico. De vontade de acompanhar mesmo, fisicamente, uma feira ambulante. Não precisaria ser pelo interior dos Estados Unidos durante a Grande Depressão: pelo interior do Brasil durante os dias de hoje já estaria de bom tamanho: a realidade, apesar de diferente, ainda é dura e pouco acolhedora.
Claro que provavelmente nunca irei fugir com o circo, mas todo o mundo tem uns sonhos malucos (e, ironicamente, de certa forma também meio clichês), não é mesmo? Fugir para um lugar semi-deserto e meio paradisíaco, e abrir um restaurantezinho. Virar hippie. Viajar dirigindo um caminhão. Pôr a mochila nas costas e sair caminhando em busca de aventuras. Meu sonho maluco e clichê passou a ser fugir com o circo. Preferencialmente, um circo de aberrações como os que se viam antigamente, e hoje não existem mais. Quem sabe encontrar deus e o diabo por aí… Quem sabe despertar…
Meu lugar, claro, continua sendo aqui, no conforto de uma cidade (interessante notar que aqui em Brasília acabou a estação da lama e está começando a da poeira – tudo que ver com o dust bowl, hein?
), mas fazia tempo que não via um seriado tão bom e tão viciante. Para que não acabe me perdendo com as metáforas sobre fugir com o circo para despertar, apenas deixo registradas minha indignação com o cancelamento da série, bem como com a recusa da HBO em liberar a história e os personagens para a conclusão, e a recomendação fortíssima de que assistam a esse seriado tão intrigante, e bem mais instigante que qualquer série do JJ Abrams.
E, claro, deixo também um pouquinho mais de música. Só eu que acho o comecinho desta peça parecido com Amazing Grace?
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Sávio, muito bom o comentario, Carnivale realmente é tudo isso q vc descreveu e mais um pouco… acabei de assistir a primeira temporada há 10 minutos, e já vou começar a segunda.. é uma pena q seja “uma historia sem fim”, mas quem sabe isso nao contribua para a magia do seriado nao? bom, ficou apenas uma dúvida, qual é exatamente o objetivo do irmao Justin? nao entendi direito qual eh a dele na serie, apesar de achá-lo um personagem fascinante… bom, espero obter resposta, aqui ou na segunda temporada….
obrigado!
Heh, se eu responder agora, estraga uma revelação bombástica da segunda temporada!
Mas o season finale da primeira já deixa o papel do Justin razoavelmente claro, é só prestar atenção… ele só não dá os detalhes.
E sou eu que agradeço pelo seu comentário!
sim sim, eu percebo q temos o ben como o bem, e o justin como o mau, um tem q matar o outro, como uma “guerra santa” q sempre existiu, o avatar do bem contra o avatar do mal, ae no primeiro episodio da segunda, o carinha da gerencia disse q eh o russo q sempre foi inimigo do henry sccuder, mas qual dos dois era o bom? e ele diz tb pro samson q o ben “tenta” ele… como assim?
vlw kra!
por favor, como vc colocou essas músicas aí?
Alguém me ajude.
É um plugin para o WordPress chamado Audio Player: http://wpaudioplayer.com/
Sávio escreveu recentemente: Saudades daqui
Obrigada Sávio