Wolfgang Amadeus nutria interesse por fenômenos “sobrenaturais” e frequentava grupos do racionalismo iluminista, liderados por Franz Anton Mesmer, médico vienense e membro da Ordem Rosacruz. Mesmer formulou a teoria do magnetismo animal e praticava curas através do “fluido” universal (mesmerismo). Amadeus aprendeu com Mesmer a existência de um “sentido interior” no homem além das sensações e da razão. O médico Rosacruz e o jovem compositor foram amigos íntimos. Desenvolveram juntos um instrumento musical, a “harmônica de vidro” ou “glass-harmonika” (sic), a partir de um projeto de Benjamin Franklin, que também era Rosacruz. Segundo alguns ocultistas da época, esse instrumento “arrebatava” o corpo psíquico dos ouvintes. Por isso o instrumento caiu em desuso. Todavia, Mozart compôs para ele o “Adagio para Harmonika, k.356” e o “Adagio e Rondo para Harmonika, Flauta, Oboé, Viola e Violoncelo, k.617”.
(José Maurício Guimarães, FRC)
O trecho acima pode até conter algumas impropriedas, mas muito me interessei pelo instrumento em questão. Nunca tinha nem ouvido falar na tal harmônica de vidro, ou ainda hidrocristalofone, ou hidrodactilopsiquicarmônica, ou, simplesmente, armonica (assim mesmo, sem H nem acento). Ela é constituída por um conjunto de taças de vidro semi-esféricas, de vários tamanhos, parcialmente inseridas uma dentro da outra por ordem de tamanho, de modo a fazer uma escala diatônica. Essas taças estão montadas num eixo que atravessa o centro dessas mesmas taças, e encontram-se semi-imersas num recipiente com água. Um sistema de pedal aciona o eixo, de modo a que as taças girem ao redor deste. O instrumento é tocado friccionando os dedos em cada uma das taças humedecidas, uma para cada nota.
Conta-se que o grande Ben Franklin, após ver o músico Edmund Delaval tocar um arranjo de copos em Cambridge, Inglaterra, em 1758, ficou maravilhado com o som produzido e decidiu fazer um novo instrumento, baseado no mesmo princípio. Parecia uma máquina de costura, que fazia rodar diversos círculos de vidro, de diversos diâmetros, produzindo o mesmo efeito dos copos: era a armonica. Há registro de que, depois de construir o primeiro modelo do seu instrumento, Franklin começou a testar suas harmonias tarde da noite, enquanto sua mulher dormia. Na manhã seguinte, ela teria vindo dizer-lhe que tivera tido um sonho e ouvira “a música dos anjos”. Mais tarde, William Zeitler adicionou ao instrumento a água, de modo a alterar a altura das notas. Nos anos que se seguiram, foi criada toda uma série de instrumentos de vidro, todos baseados no mesmo princípio: o melodion, o clavicilindro, a espirafina, a harpa de vidro, o uranion, e muitos outros. A maioria das peças compostas para eles se perdeu junto com os próprios instrumentos. Consta que a própria Maria Antonieta aprendeu a tocar a armonica.
A popularidade do instrumento, contudo, não sobreviveu ao século XVIII. Ocultistas afirmavam que ela arrebatava o corpo psíquico dos músico e dos ouvintes. Alguns supersticiosos diziam que o instrumento levava à loucura. Versões mais modernas diziam que a armonica envenava os músicos por ser feita de cristal de chumbo. O mais provável, contudo, é que ela tenha quase desaparecido simplesmente devido a mudanças no gosto musical das pessoas. Atualmente, contudo, alguns músicos procuram reavivá-la, como o francês Thomas Bloch.
Para terminar, claro, um pouco de música, tocada na harmônica de vidro! A canção é The Fixed Stars, the Frontier to the Beyond, do álbum Music of the Spheres, do músico americano William Zeitler, e é distribuída sob uma licença Creative Commons. Sente-se ou deite numa posição confortável, feche os olhos e ouça:
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Fontes: Revista O Rosacruz, Outono/2009
http://pt.wikipedia.org/wiki/Harmónica_de_vidro
http://en.wikipedia.org/wiki/Glass_harmonica
http://www.jrwp.com.br/musica/leartigo.asp?ID=69
Imagens: More Interesting Street Music, por Craig (adventures_in_craig), e 5* por Jérôme Plano (mypixelisrich)











Pregunta: O que aconteceu com o “Encante-se”?
Valney escreveu recentemente: Mas já?
Então, aquilo era só um rascunho que a anta aqui mandou acidentalmente publicar, e quando vi já tinha ido parar nos feeds… Algum dia, quem sabe, ele saia de verdade, todo arrumado e ilustrado. Ou não.