Já tinha falado aqui das minhas primeiras impressões acerca do curso de preparação que fiz até ontem, última etapa do concurso para oficial de chancelaria – ou, resumindo, ofchan – de que estou participando. (É, resolvi parar de frescura e dizer logo aqui no blog, em vez de apenas a quem me pergunta pessoalmente). Sexta foi o último dia, e posso, então, fazer meu relato final.
Primeiro: como respondi ao Douglas nos comentários ao outro post, nunca mais vi a menina com quem dividi o táxi, a não ser de longe, nos coffee breaks. Também nunca mais dividi táxi. Pena que foi só nos últimos dias que descobri um horário em que passava uma zebrinha (nome popular dado aos microônibus aqui na capital federal) suficientemente tarde para eu não precisar levantar às 5h30 da matina, e suficientemente cedo para ainda chegar com uma meia hora de antecedência à LBV. Na volta, eu quase sempre me impacientava com a espera, e acabava pegando dois ônibus para chegar em casa, ou um só que fazia um percurso bem maior, só porque passava mais cedo que o outro, que me deixaria em casa pelo trajeto mais curto.
Quanto ao curso em si, digo que as duas semanas poderiam ser tranqüilamente resumidas em dois dias. Minhas previsões sobre as aulas de português e inglês se confirmaram: sinceramente, foram dispensáveis. Para começar, já não tínhamos sido avaliados com duas provas, uma objetiva e uma redação, para cada idioma? Para quê mais, meodeos? As aulas de português me faziam me sentir novamente no Ensino Médio, com a diferença de serem muito mais maçantes. Tivessem chamado uma das professoras que tive (de preferência a Lindalva ou a Teresinha), teria sido incrivelmente mais proveitoso, certeza. Eita, que deu até saudades delas, agora…
Das aulas de inglês, então, nem se fala. O objetivo: aprender a diferenciar quando se usa Brazil e quando se usa Brazilian; quando se usa big, quando se usa large e quando se usa great; quando se usa what, quando se usa which e quando se usa that, dente outras distinçõezinhas decorebas. Esqueçam a compreensão da língua. Esqueçam a desenvoltura e a intimidade com ela. Viva o decoreba puro! As aulas de inglês só serviram para duas coisas: (1) dormir; e (2) aprender a consultar o corpus, coisa que, sinceramente, acho que só vou fazer se algum dia for atrás de uma pós-graduação em lingüística. Se me permitem ser chato: gostava mais da minha professora de inglês do terceiro ano. Saudades da Kalina…
Tá, as professoras eram simpáticas. Reconheço isso. Pareciam gente muito boa. Mas que as aulas eram maçantes, isso eram.
Mas ainda tem mais! Quando começaram as palestras sobre o MRE em si, pensei que a coisa fosse melhorar. Eu estava errado. Algumas delas foram, de fato, muito boas, mas outras… A melhor parte era a descrição do serviço em cada departamento do Ministério. Por exemplo: o Cerimonial tem por função organizar eventos, recepção de autoridades estrangeiras, e acompanhar o Presidente em viagens internacionais. Devem se preocupar até se as descargas estão funcionando, e se sai água quente das torneiras. Qual a função do ofchan no Cerimonial? Trabalho burocrático. As divisões políticas e as embaixadas tratam de defender os interesses do Brasil no exterior, participando de debates, negociações, etc. Qual a função do ofchan nas divisões políticas e nas embaixadas? Trabalho burocrático. A assistência consular procura prestar auxílio aos brasileiros no exterior, defendendo os indivíduos, e não os interesses Estatais (embora a proteção dos cidadãos brasileiros seja de interesse do Estado). Qual a função do ofchan na assistência consular? Dez pontos para quem disse: trabalho burocrático. E por aí vai.
Véi, por que não aprofundaram um pouco mais a palestra sobre o organograma do MRE, explicando por cima o que faz cada departamento, e depois resumiram: “mas a parte legal fica para nós, diplomatas, e vocês, queridos ofchans, vão cuidar do serviço administrativo”. Pronto. Estaria tudo resolvido, de modo muito mais econômico e bem menos desgastante.
(Apesar disso, o curso não foi de todo perdido. Ainda vou receber uma ajuda de custo por ter sobrevivido a estas duas semanas, coisa que não receberia se tivesse sido só um dia e pronto. Por essa ajuda de custo, eu agüentaria até um mês de curso maçante. Porco capitalista mode on. Outro ponto positivo: foi uma ótima oportunidade para retomar algumas leituras, principalmente durante a segunda semana, quando não tive aulas na faculdade! Consegui ler o Fama e o Confessio Fraternitatis, metade d’O Casamento Alquímico de Christian Rosenkreutz, e mais algumas revistas que tinha salvas no laptop. E ainda tirei uns cochilos bem gostosos).
E, no último, dia, a prova… Era para estarmos lá antes as 13h. Cheguei às 13h45. Felizmente, essa era a hora limite, e se tivesse chegado depois dela, estaria devidamente eliminado do concurso. Dentro do ônibus, morrendo de medo de não chegar a tempo, já estava imaginando todas as cenas que iria protagonizar. O saco dos fiscais que eu iria encher, pedindo para abrirem uma exceção e me admitirem lá dentro (“Mas foram só alguns minutos! Quê que custa abrir uma exceção? Por favor, moça…”). O desolamento por ter enfrentado as duas semanas de curso, para ser eliminado na ultimíssima etapa. O telefonema para minha mãe (o que iria receber dela? Uma bronca, compreensão, ou ambas?). A volta decepcionada para casa. O tanto que iria remoer o infortúnio, o tanto que iria meditar a respeito, e, finalmente, a aceitação do acontecido, quando estaria pronto para outra. No fim das contas, deu tudo certo, e terminei a prova em uma hora e vinte minutos. Véi, preciso parar de sofrer pelas coisas com antecipação, e esperar o momento certo para isso – ou seja, quando a merda efetivamente acontecer. Tanto desgosto desperdiçado assim à toda para quê, afinal?
E, mesmo tendo terminado a prova cedo, só cheguei em casa à noite, graças a minha pressa de ter sempre que pegar o primeiro ônibus que passa. Taí outra lição que preciso aprender.
Mas, mesmo com todas as chateações e contratempos, terminou… O saldo, no fim das contas, acho que foi positivo.









Olá Sávio! Te conheço do blog da Thahy! Sou brasiliense e meu chefe já foi oficial de chancelaria no Itamaraty! Ele gostava de lá! Disse que só saiu da área administrativa(gestão de contratos) quando foi pro Cazaquistão. Voltou de lá e conseguiu dar entrada num flat. Boa sorte nesse concurso!
Opa, Sinval! Também lembro de ti lá do bloguinho dela!
Então, hoje saiu o resultado do concurso… Fui aprovado, e bem classificado, mas ainda falta o mais importante: tomar posse. E isso eu não tenho garantia nenhuma de que vá ser possível
Enfim… de qualquer modo, obrigado!
Savio, converse com um professor para tentar liberar seu diploma mais cedo e se comprometa a apresentar seu projeto final no final do ano.
Diga que passastes num concurso.
Pode ser que a coordenação aceite.
Abraço!