Talvez este post seja excessivamente alarmista. Não pude conferir pessoalmente a situação, de modo que o que escrevo aqui chegou até mim indiretamente. Faz alguns dias que minha mãe me fala do quanto tem chovido em Teresina, minha terra natal. Só ontem pude ter uma noção do quão grave era o problema, quando um amigo me passou um link para umas fotos da cidade alagada.
Para quem não conhece Teresina, há dois rios que cortam a cidade: o Paranaíba, fazendo a divisa com o vizinho Estado do Maranhão – também abalado pelas enchentes –, e o Poti, que nasce intermitente no sertão do Ceará e chega perene a Teresina, dividindo a cidade em duas, até desaguar no Paranaíba, dando uma visão muito bonita e tranqüilizadora. Há uma barragem, construída em território piauiense, que controla a vazão do rio, mas, mesmo assim, sempre foi ele o maior responsável pelas enchentes na minha cidade natal. Teresina, aliás, foi construída próxima à antiga Vila do Poty, uma das mais antigas da então província do Piauhy e hoje o bairro do Poty Velho, só para mostrar um pouco da importância desse rio para a cidade.
E é justamente o Poti que costuma subir de nível e alagar a cidade. Os moradores da antiga Vila do Poty já conviviam com isso. Os moradores de Teresina convivem até hoje. Pessoas com algum bom senso e conhecimento do problema evitariam construções muito próximas ao leito do rio, ou a fariam com os devidos cuidados para evitar grandes danos, no caso de enchentes. Um governo competente cuidaria para que isso fosse obrigatório, e faria obras que realmente fossem capazes de conter o leito do rio. Alguma consciência ecológica faria as pessoas preservarem as margens do rio, evitando o assoreamento de seu leito. No entanto, o que se vê são avenidas construídas a poucos metros das margens e casas construídas em terrenos impróprios para isso. Para conter as águas do rio, tudo que há é um dique numa área, a meu ver, pequena. Quando chove mais do que de costume, o resultado é o do vídeo abaixo:
Não sei de quando são as imagens, mas o vídeo foi postado hoje. Algumas casas estão completamente embaixo da água. De outras, só se vê o teto. Há até pessoas pescando em pleno asfalto, do tanto que o nível do rio subiu (hoje pela manhã, passa dos quinze metros). Os dois lados da cidade, cortada pelo rio, estão isolados um do outro. As escolas e universidades públicas, e algumas particulares, fecharam as portas por pelo menos 72 horas. Os órgãos públicos decretaram ponto facultativo. Os shopping centers, pelo que disse minha mãe, estão fechados. Simplesmente não é possível passar de um lado a outro da cidade, porque o rio não deixa.
Hoje, o presidente Lula viajou a Teresina, sobrevoou a cidade, e ficou horrorizado com o que viu. O Poti encheu tanto que compromete até o curso do Parnaíba, podendo causar refluxo neste último. E, às margens do primeiro, há tanto bairros ricos quanto bairros pobres, e todos são afetados. (Embora, claro, o prejuízo maior vá para a população mais pobre, que não tem condições de recuperar o patrimônio perdido). Nove bairros ficaram sem luz.
No Estado inteiro, mais de 30 mil pessoas estão desabrigadas por conta das enchentes. (Não, não é só o Poti que está causando estragos). 30 municípios já foram atingidos. 19 decretaram estado de emergência. 5, estado de calamidade pública (incluindo aí a capital Teresina). E a enchente atinge também o Maranhão e o Ceará. No primeiro, pelo menos 39 municípios tiveram problemas por conta das enchentes, 29 estão em estado de emergência, e um estado de calamidade pública. Todas as BR’s que cortam o Estado têm algum trecho intrafegável, por causa das águas. No Ceará, são 52 cidades atingidas. E esses são números de ontem.
Daí a gente pergunta: cadê a grande mídia nacional, falando do assunto? Na internet, é bem fácil achar informações a respeito. No Twitter, por exemplo, a tag #EnchentEmTeresina tem ajudado a mobilizar pessoas para arrecadarem doações. Segundo circula no mesmo Twitter, o número de atingidos nos três Estados já supera o de atingidos em Santa Catarina, onde as enchentes provocaram comoção nacional. Foi no Twitter que achei o vídeo lá em cima. Foi lá que foi divulgada a conta bancária para arrecadar doações. A maioria das pessoas com quem eu conversei pessoalmente a esse respeito confessou ter ficado sabendo das enchentes no Nordeste por mim – e ainda dizem que o Twitter é inútil!
Sei lá… Taí um assunto que me comoveu. Até lembrei agora de um dos meus professores de Geografia do Ensino Médio dizendo que, caso não se tomassem logo providências a esse respeito, em poucos anos Teresina enfrentaria enchentes terríveis. Cinco anos depois dessa previsão, dito e feito. Pergunto-me se agora aprendem a lição…
Para terminar o post, uma música – sugestão do Valney. Ela fala do Ceará, mas se aplica a todos os Estados atingidos. Grande Luiz Gonzaga:
Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem pararOh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que háSenhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedir pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chãoOh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe,
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oraçãoMeu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água
E ter-lhe pedido cheinho de mágoa
Pro sol inclemente se arretirarDesculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno
Desculpe eu pedir para acabar com o inferno
Que sempre queimou o meu Ceará
Antônio Conselheiro já dizia que o sertão iria virar mar. Ele falava isso em sentido metafórico, para dizer que o interior teria tanto poder político quanto a capital. Pelo visto, ele estava certo, mas em sentido literal.









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